Entro em Monserrate – o parque e o castelo – como quem atravessa um limiar invisível. Naquelas paredes, gramas, terras, pedras e águas não há urgência. Não é à toa que tudo ali começou no século XVI, o mesmo em que os portugueses chegaram ao Brasil. O caminho se estreita, a vegetação se adensa, e logo compreendo que o tempo — esse hábito moderno — não foi convidado. O parque não se oferece de imediato; ele se revela aos poucos, como fazem as coisas que realmente importam.
Caminho entre árvores vindas de muitos mundos, nesta paisagem em Sintra, Lisboa. Elas não competem entre si; convivem. Há algo de profundamente humano nesse convívio vegetal, como se o jardim tivesse aprendido, antes de nós, a arte da tolerância e da escuta. O ar é úmido, antigo, e cada curva do trilho parece ensaiar um silêncio diferente.
Penso em Lord Byron – o britânico bardo errante – e o imagino caminhando por estes mesmos desníveis, ainda no início do século XIX, quando Monserrate era mais sugestão do que forma. Ele não viu o palácio como hoje o vejo, mas talvez tenha visto mais. Byron vinha à procura do sublime — essa mistura de beleza e vertigem que o ultrarromantismo tanto inspirou — e encontrou aqui uma paisagem que não se explicava, apenas se sentia.
Em Childe Harold’s Pilgrimage, ele escreve sobre Sintra como quem escreve sobre um estado da alma. Monserrate surge ali como excesso de verde, como melancolia organizada pela natureza. Não era um lugar para ser habitado, mas contemplado; não para oferecer respostas, mas para aprofundar perguntas. Caminhar naqueles “ontens”, ou neste exato momento é, de certo modo, continuar o poema que Byron começou.
Quando o palácio finalmente aparece, não o faz com arrogância. Ele surge quase tímido, integrado à paisagem, como se pedisse licença às árvores. Suas formas exóticas, suas curvas orientais, suas janelas rendilhadas parecem menos um projeto arquitetônico e mais um devaneio materializado.
É então que penso em Sir Francis Cook. Outro inglês, outro tempo, outro gesto. Onde Byron passou como viajante arrebatado, Cook permaneceu como sonhador metódico. Ele não quis corrigir a paisagem — mas dialogar com ela. Transformou Monserrate numa obra onde o mundo inteiro cabe: influências mouriscas, ecos góticos, imaginação orientalista, tudo reunido não por ostentação, mas por fascínio.
Percorro o interior do palácio como quem percorre uma ideia. A luz entra filtrada, as colunas se elevam como pensamentos inacabados, e há uma sensação constante de que nada ali foi feito para impressionar, mas para durar emocionalmente. Cook não construiu um palácio para si; construiu um lugar para o tempo.
Volto ao parque, sento em um banco. E escuto. Monserrate não pede pressa nem reverência — pede atenção. É um lugar onde a natureza e a cultura desistiram de disputar protagonismo e decidiram coexistir.
Ao sair, levo a impressão de ter visitado não um monumento, mas um intervalo. Um espaço onde o mundo desacelera, onde a paisagem escreve poesia sem palavras, e onde dois ingleses — um poeta e um construtor de sonhos — ainda conversam, em silêncio, através das folhas, da pedra e da memória.
*Sérgio Augusto do Nascimento é um jornalista paraense que vive em Portugal. Já foi repórter e editor e hoje é correspondente do DIÁRIO na Europa.













